Quando ele era criança, achava que o mundo acabava ali.
Ficou parado no meio do quarteirão, observando a ladeira, tão íngreme que não dava pra ver nada além da esquina. Parecia um precipício. A borda da Terra. Como nas histórias que contavam os marinheiros ao retornar das grandes navegações. Como se dali em diante não houvesse mais chão. Ficou ali um bom tempo, lembrando em quantas vezes ficou olhando aquela esquina e pensando que não havia nada dali em diante.
Até o dia. Aquele dia. O fim da infância. Quando viu o avô descendo o último quarteirão da Terra, rumo ao desconhecido. O corpo desaparecendo de baixo para cima, como um navio que desaparece conforme avança oceano adentro.
Ficou pasmo. A boca aberta. As mãos travadas. Os olhos arregalados. Onde o vô vai? — Era a única coisa que conseguia pensar. — "No bar do Mineiro, comprar Coca antes que fecha." — Foi a resposta. — Só então percebeu que havia pensado em voz alta. Seguiu com os olhos o avô descendo o quarteirão, o quarteirão proibido, o limite da existência que ia dar no precipício do qual nunca haviam lhe falado, mas que não precisava ser falado: o que pode haver depois do fim do caminho, onde não existe mais chão? Um precipício, é claro!
"Quer ir com ele?"
Hesitou, mas olhou para a avó afirmativamente. Depois de crescido, chegou a pensar se não foi o mesmo olhar que Caminha lançou ao rei de Portugal antes de seguir com Cabral rumo às Índias ou que Buzz Aldrin lançou ao diretor da NASA antes de seguir com Neil Armstrong para a lua. Um olhar, embora cauteloso, decidido, seguido de um "Vai".
"Teria o rei de Portugal também gritado 'Espera! Caminha vai junto!' ou o diretor da NASA gritado 'Hold on! Buzz is coming too!' antes da Anunciação ou a Apollo 11 seguirem seus rumos?"
Rumo ao oceano. Rumo ao oceano cósmico.
Oceano cósmico. O livro que estava lendo usava esse termo — um livro que tentava explicar coisas difíceis de um jeito fácil. Há mais coisas que desconhecemos no fundo do oceano do que lá no seio do cosmos. Já não havia mais mistérios na rua de baixo da antiga casa dos avós, ou do outro lado do mar, ou até mesmo no Mar da Tranquilidade, onde a caravela dos astronautas um dia ancorou. O maior mistério do oceano cósmico, hoje, são os buracos negros.
Um nada quase tangível de tão denso. Um caroço de estrela chupada. — Era como ele falaria se tivesse que explicar um buraco negro a alguém. — Um caroço de estrela chupada que tem tanta gravidade que se espreme até sumir, e que depois de sumir deixa um nada perigoso, um nada onde você pode cair e desaparecer se chegar muito perto. Igual a um precipício.
De certa forma era assim que ele se sentia. Era uma daquelas semanas em que tudo era difícil e pesado e qualquer problema, por menor que fosse, se tornava um transtorno quase incorrigível. Era como se todo o peso do mundo estivesse em suas costas, tanto peso que ele não aguentaria e colapsaria a qualquer momento. Ele se transformara em um local de massa infinita em área zero. Um ponto sem ponto. Um peso sem uma base onde possa cair. E qualquer um que chegasse muito perto poderia escorregar e cair, desaparecendo para sempre.
Não queria ver ninguém. Não queria que ninguém caísse no seu vazio. Queria ser o único a contemplar o precipício de si próprio, aquele nada quase tangível de tão denso.
Por isso ele tinha ido pra longe naquela manhã: caminhava para algum lugar sempre que sentia não ter para onde ir. E essa caminhada longa, solitária e vazia o fazia perceber que sua cabeça estava cheia. Então ele ia a esvaziando pelo caminho, jogando pela calçada pedacinhos de seus pensamentos com os quais os pombos se empanturravam. E quanto mais pensamentos ele tirava das prateleiras do seu vazio, mais percebia que não estava vazio coisa nenhuma. Na verdade o problema era o contrário: estava era cheio. Cheio de tantos pensamentos que não conseguia se mover dentro de si próprio. Por isso precisava sair.
Depois de ficar ali, parado no meio do quarteirão, contemplando por alguns minutos a antiga casa abandonada onde os avós moraram quando era criança, ele decidiu caminhar até o precipício. O fim do mundo. Onde a Terra acaba. Como se fosse aquela criança, muitos anos atrás, desbravando o desconhecido.
Vinte segundos depois chegou à esquina. Parou e ficou contemplando as três ruas perpendiculares que haviam antes do fim da rua onde estava. Não se lembrava de ser uma rua tão curta. Na verdade, não se lembrava de ter olhado para o fim da ladeira quando chegou àquela esquina pela primeira vez muitos anos antes. E recomeçou a caminhada por aquele bairro, onde passou tanto tempo da infância mas que lhe era, ainda assim, tão desconhecido. Seguiu a rua de baixo rumo ao Centro, mas não encontrou o bar do Mineiro. Talvez fosse a rua errada, talvez não existisse mais. Talvez fora engolido pelo grande buraco negro da vida.
***
Quando saiu de dentro de si e voltou ao mundo exterior já estava a poucos quarteirões de casa. A nova casa, no Edifício Pasárgada. Lembrou que esse era um dos motivos de estar tão pesado: a mudança. De novo morava em um apartamento. Sem quintal, sem calçada própria, sem lugar para pendurar a rede, sem árvores. Isso o entristecia. Mas a caminhada o fez se sentir melhor e ele já não sentia mais aquela repulsa ao contato humano que sentira ao acordar naquela manhã de sábado.
Chegando à esquina lembrou-se que estava sem verdura em casa e entrou no Espaço Shibui, um terreno onde um senhorzinho oriental montara uma horta. Um verdadeiro oásis no meio daquele monstro de concreto que era o Centro. Ele sempre se demorava de propósito escolhendo as verduras para poder ficar mais tempo naquele paraíso. O Senhor Shibui simplesmente o deixava lá, caminhando de um lado para o outro vagarosamente até decidir o que ia levar, limitando-se a fazer um breve e contida reverência quando ele passava pelo portão. O Senhor Shibui não era muito de falar.
Já bem menos avesso ao contato humano, ele entrou no Edifício Pasárgada, com o pé de alface escolhido na sacola. No corredor da escada, no terceiro andar, deu com a moça da boina do quinto. Ela deu aquele sorriso cordial acompanhado de um "bom dia" padrão e continuou descendo. Estava sempre com pressa. Era esquisita, mas bonita. Bonita. É uma palavra forte. Interessante. Ela era interessante. Pena que fumava. Embora nunca a vira fumando nem nunca chegara perto o suficiente para sentir seu cheiro, ele sabia que ela fumava. Tem alguma coisa no fumante que o faz parecer fumante. Alguma coisa que não é o fato de estar sempre fumando ou segurando um cigarro ou jogando uma bituca na rua, e que também não é o seu cheiro. Alguma coisa que sempre faz a surpresa da pergunta "Você fuma, é?" parecer idiota.
Quando entrou no seu apartamento, no quarto andar, ele guardou a alface na geladeira e se sentou um pouco, digerindo tudo o que havia pensado durante a manhã. Abriu a gaveta da escrivaninha. Sempre que voltava de uma dessas caminhadas o espaço vazio dentro de si parecia ter sido preenchido por muitas ideias e pensamentos e ele precisava esvaziar a cabeça em algum lugar. Procurou embaixo das contas e no fundo da gaveta, mas não o encontrou. Procurou por todo o apartamento: em cada gaveta, superfície e canto. Nada. Onde, diabos, podia ter ido parar?
Começou a ficar nervoso. Afinal, todas as suas grandes ideias e pensamentos estavam seguras, guardadas lá, e a ideia de voltar a morar em um apartamento não parecia mais tão terrível agora.