Onde a Terra acaba

Quando ele era criança, achava que o mundo acabava ali.

Ficou parado no meio do quarteirão, observando a ladeira, tão íngreme que não dava pra ver nada além da esquina. Parecia um precipício. A borda da Terra. Como nas histórias que contavam os marinheiros ao retornar das grandes navegações. Como se dali em diante não houvesse mais chão. Ficou ali um bom tempo, lembrando em quantas vezes ficou olhando aquela esquina e pensando que não havia nada dali em diante.

Até o dia. Aquele dia. O fim da infância. Quando viu o avô descendo o último quarteirão da Terra, rumo ao desconhecido. O corpo desaparecendo de baixo para cima, como um navio que desaparece conforme avança oceano adentro.

Ficou pasmo. A boca aberta. As mãos travadas. Os olhos arregalados. Onde o vô vai? — Era a única coisa que conseguia pensar. — "No bar do Mineiro, comprar Coca antes que fecha." — Foi a resposta. — Só então percebeu que havia pensado em voz alta. Seguiu com os olhos o avô descendo o quarteirão, o quarteirão proibido, o limite da existência que ia dar no precipício do qual nunca haviam lhe falado, mas que não precisava ser falado: o que pode haver depois do fim do caminho, onde não existe mais chão? Um precipício, é claro!

"Quer ir com ele?"

Hesitou, mas olhou para a avó afirmativamente. Depois de crescido, chegou a pensar se não foi o mesmo olhar que Caminha lançou ao rei de Portugal antes de seguir com Cabral rumo às Índias ou que Buzz Aldrin lançou ao diretor da NASA antes de seguir com Neil Armstrong para a lua. Um olhar, embora cauteloso, decidido, seguido de um "Vai".

"Teria o rei de Portugal também gritado 'Espera! Caminha vai junto!' ou o diretor da NASA gritado 'Hold on! Buzz is coming too!' antes da Anunciação ou a Apollo 11 seguirem seus rumos?"

Rumo ao oceano. Rumo ao oceano cósmico.

Oceano cósmico. O livro que estava lendo usava esse termo — um livro que tentava explicar coisas difíceis de um jeito fácil. Há mais coisas que desconhecemos no fundo do oceano do que lá no seio do cosmos. Já não havia mais mistérios na rua de baixo da antiga casa dos avós, ou do outro lado do mar, ou até mesmo no Mar da Tranquilidade, onde a caravela dos astronautas um dia ancorou. O maior mistério do oceano cósmico, hoje, são os buracos negros.

Um nada quase tangível de tão denso. Um caroço de estrela chupada. — Era como ele falaria se tivesse que explicar um buraco negro a alguém. — Um caroço de estrela chupada que tem tanta gravidade que se espreme até sumir, e que depois de sumir deixa um nada perigoso, um nada onde você pode cair e desaparecer se chegar muito perto. Igual a um precipício.

De certa forma era assim que ele se sentia. Era uma daquelas semanas em que tudo era difícil e pesado e qualquer problema, por menor que fosse, se tornava um transtorno quase incorrigível. Era como se todo o peso do mundo estivesse em suas costas, tanto peso que ele não aguentaria e colapsaria a qualquer momento. Ele se transformara em um local de massa infinita em área zero. Um ponto sem ponto. Um peso sem uma base onde possa cair. E qualquer um que chegasse muito perto poderia escorregar e cair, desaparecendo para sempre.

Não queria ver ninguém. Não queria que ninguém caísse no seu vazio. Queria ser o único a contemplar o precipício de si próprio, aquele nada quase tangível de tão denso.

Por isso ele tinha ido pra longe naquela manhã: caminhava para algum lugar sempre que sentia não ter para onde ir. E essa caminhada longa, solitária e vazia o fazia perceber que sua cabeça estava cheia. Então ele ia a esvaziando pelo caminho, jogando pela calçada pedacinhos de seus pensamentos com os quais os pombos se empanturravam. E quanto mais pensamentos ele tirava das prateleiras do seu vazio, mais percebia que não estava vazio coisa nenhuma. Na verdade o problema era o contrário: estava era cheio. Cheio de tantos pensamentos que não conseguia se mover dentro de si próprio. Por isso precisava sair.

Depois de ficar ali, parado no meio do quarteirão, contemplando por alguns minutos a antiga casa abandonada onde os avós moraram quando era criança, ele decidiu caminhar até o precipício. O fim do mundo. Onde a Terra acaba. Como se fosse aquela criança, muitos anos atrás, desbravando o desconhecido.

Vinte segundos depois chegou à esquina. Parou e ficou contemplando as três ruas perpendiculares que haviam antes do fim da rua onde estava. Não se lembrava de ser uma rua tão curta. Na verdade, não se lembrava de ter olhado para o fim da ladeira quando chegou àquela esquina pela primeira vez muitos anos antes. E recomeçou a caminhada por aquele bairro, onde passou tanto tempo da infância mas que lhe era, ainda assim, tão desconhecido. Seguiu a rua de baixo rumo ao Centro, mas não encontrou o bar do Mineiro. Talvez fosse a rua errada, talvez não existisse mais. Talvez fora engolido pelo grande buraco negro da vida.

***

Quando saiu de dentro de si e voltou ao mundo exterior já estava a poucos quarteirões de casa. A nova casa, no Edifício Pasárgada. Lembrou que esse era um dos motivos de estar tão pesado: a mudança. De novo morava em um apartamento. Sem quintal, sem calçada própria, sem lugar para pendurar a rede, sem árvores. Isso o entristecia. Mas a caminhada o fez se sentir melhor e ele já não sentia mais aquela repulsa ao contato humano que sentira ao acordar naquela manhã de sábado.

Chegando à esquina lembrou-se que estava sem verdura em casa e entrou no Espaço Shibui, um terreno onde um senhorzinho oriental montara uma horta. Um verdadeiro oásis no meio daquele monstro de concreto que era o Centro. Ele sempre se demorava de propósito escolhendo as verduras para poder ficar mais tempo naquele paraíso. O Senhor Shibui simplesmente o deixava lá, caminhando de um lado para o outro vagarosamente até decidir o que ia levar, limitando-se a fazer um breve e contida reverência quando ele passava pelo portão. O Senhor Shibui não era muito de falar.

Já bem menos avesso ao contato humano, ele entrou no Edifício Pasárgada, com o pé de alface escolhido na sacola. No corredor da escada, no terceiro andar, deu com a moça da boina do quinto. Ela deu aquele sorriso cordial acompanhado de um "bom dia" padrão e continuou descendo. Estava sempre com pressa. Era esquisita, mas bonita. Bonita. É uma palavra forte. Interessante. Ela era interessante. Pena que fumava. Embora nunca a vira fumando nem nunca chegara perto o suficiente para sentir seu cheiro, ele sabia que ela fumava. Tem alguma coisa no fumante que o faz parecer fumante. Alguma coisa que não é o fato de estar sempre fumando ou segurando um cigarro ou jogando uma bituca na rua, e que também não é o seu cheiro. Alguma coisa que sempre faz a surpresa da pergunta "Você fuma, é?" parecer idiota.

Quando entrou no seu apartamento, no quarto andar, ele guardou a alface na geladeira e se sentou um pouco, digerindo tudo o que havia pensado durante a manhã. Abriu a gaveta da escrivaninha. Sempre que voltava de uma dessas caminhadas o espaço vazio dentro de si parecia ter sido preenchido por muitas ideias e pensamentos e ele precisava esvaziar a cabeça em algum lugar. Procurou embaixo das contas e no fundo da gaveta, mas não o encontrou. Procurou por todo o apartamento: em cada gaveta, superfície e canto. Nada. Onde, diabos, podia ter ido parar?

Começou a ficar nervoso. Afinal, todas as suas grandes ideias e pensamentos estavam seguras, guardadas lá, e a ideia de voltar a morar em um apartamento não parecia mais tão terrível agora.

Os sonhos elétricos de Suzana

Era um início de noite quente de quarta-feira quando ela o viu pela primeira vez.

Lá estava ele, imóvel, de costas para a porta.

Ao perceber que não estava sozinha no apartamento, um calafrio desceu por todo o corpo de Suzana. Paralisada pelo medo, ela ficou olhando para ele como se isso fosse fazê-lo desaparecer num passe de mágica, mas ele continuava lá.

Ela pensou que poderia estar dormindo, tendo um pesadelo, mas infelizmente aquilo era real.

Suzana trancou por fora a porta do banheiro e o deixou lá, sozinho, enquanto pensava em como lidaria com a situação e, perdida numa tempestade de ideias inúteis, ela se fez uma pergunta: como ele havia ido parar lá? Afinal, era o quarto andar! Por fora era impossível. Pela porta da frente, talvez? Muito improvável. Ela teria que tê-la deixado aberta.

Pelo ralo? Pela privada?

A cabeça de Suzana já estava começando a formular hipóteses completamente sem sentido. Então ela decidiu deixá-lo lá e ir dormir. Uma hora ele teria que ir embora de onde veio, para sua família, seus amigos — se é que ele tinha família e amigos. De qualquer forma, Suzana foi dormir e deixou esse problema para o dia seguinte.

***

Suzana acordou cansada. Como de costume se levantou bem cedo, passou o café às cinco para as seis, pegou sua câmera para observar a rotina diária do Senhor Chan na horta da esquina e escreveu em seu caderno

Hoje o Senhor Chan cuidou das alfaces. Lembrar de qualquer dia ir comprar uma alface da horta dele.

O sol lentamente ia surgindo no horizonte, era uma quinta-feira bonita.

Suzana lavou o rosto e escovou os dentes pensando em como era estranho a porta do banheiro amanhecer trancada. Foi então que ela se lembrou, se virou lentamente e olhou para trás.

Lá estava ele, imóvel, de costas para a porta.

O sangue de Suzana congelou. Ela saiu do banheiro rezando para que ele não decidisse sair de onde estava.

Ela trancou a porta por fora e se sentou no sofá com as mãos trêmulas na cabeça. Ficou sentada ali, imóvel, por um tempo. Não sabia o que fazer. Não sabia como agir. Já eram quase quinze para as sete quando Suzana deciciu que não pensaria mais nisso, pelo menos não até voltar. O invasor de sua casa não podia ser também um invasor de sua vida.

Ela se trocou, engoliu duas bolachas cream cracker com requeijão, pegou sua bolsa e desceu correndo.

A quinta-feira passou depressa. Suzana tentou não pensar no invasor, mas acabou indo ao banheiro antes de ir embora para evitar ter que usar o banheiro de casa.

***

A sensação de acordar depois de dormir sem tomar banho era horrível. Suzana não se lembrava se já havia feito isso antes. Ela chegou a pensar em nem tocar na porta do banheiro, mas sua escova de dentes estava lá dentro.

Ela abriu a porta devagar, observando atentamente o interior do cômodo, sem saber se estava rezando para que ele não estivesse mais lá ou para que estivesse exatamente onde estava da última vez que o viu.

E lá estava ele. Imóvel, de costas para a porta.

Ela puxou rapidamente sua escova de dentes e a pasta, bateu a porta e a trancou. Depois anotou em seu caderno

Ele está lá, imóvel, de costas para a porta. E eu não sei nada sobre ele.

Após escovar os dentes no tanque, Suzana se sentou no sofá, pensativa. Sua cabeça rodava. Como aquilo era possível? Ela começou a pensar há quanto tempo o invasor poderia estar espreitando nas sombras, vendo enquanto ela fazia suas coisas, espiava os vizinhos, usava o banheiro, tomava banho... Mais uma vez um calafrio arrepiou todo o seu corpo.

Ela precisava fazer alguma coisa, mas morava sozinha. O que ela poderia fazer?

Pensou em chamar alguém para ajudá-la. Mas quem? Suzana não conhecia nenhum homem no prédio. Teria que ser um homem, claro, para lidar com aquele tipo de situação, remover o invasor. Ou talvez não. Talvez duas mulheres conseguissem. Mas ela só conhecia Verônica, do quinto, e Verônica não fazia ideia de quem era Suzana. O que você iria pensar se uma vizinha desconhecida te interfonasse te chamando pelo nome e te pedisse ajuda para expulsar um invasor que estava no apartamento dela há sabe-se lá quanto tempo?

Não. Verônica não era uma opção, e era a única opção. Então não havia quem pudesse ajudá-la.

Já eram quase quinze para as sete. Suzana lavou as lágrimas no tanque, escovou os cabelos na sala, pegou sua bolsa e saiu do apartamento.

Com medo de topar com algum vizinho no elevador e ele perceber que ela não havia tomado banho, Suzana desceu pelas escadas de emergência, mas não abriu a porta quando chegou ao térreo. Era melhor esperar e pegar o próximo ônibus. Verônica também pegava o dez para as sete.

***

Suzana chegou em casa acabada. A sexta-feira custou a terminar. Correr de tudo o que envolvia outras pessoas o dia todo foi uma tarefa muito difícil.

Ela se sentou no sofá com as mãos na barriga, sem ideia do que poderia fazer para se livrar do invasor. Só de pensar no que ele poderia fazer... Aquele corpo estranho e inerte bem ali, de costas para a porta. Como ele consguia ficar tanto tempo parado?

Como ele conseguia ficar tanto tempo parado?!

Uma fagulha riscou a escuridão dos pensamentos de Suzana.

A fagulha se tornou uma chama de esperança, o rosto de Suzana se iluminou. Isso era uma possibilidade: ele sempre estava no mesmo lugar, na mesma posição de costas para a porta, nunca emitiu um som sequer, ela jamais o vira se mexer.

Não seria o melhor dos mundos, ela ainda teria que se livrar daquilo. Mas, afinal, ela teria que lidar com isso de qualquer maneira e quanto menos difícil fosse, melhor seria.

Suzana se levantou e foi até a porta, virou a chave devagar. A luz que vinha da sala se arrastou pela fresta conforme a porta foi se abrindo, pintando o banheiro de um amarelo incandescente e ocupando geométricamente a escuridão. Ela colocou a cabeça na fresta e espiou.

Lá estava ele. Imóvel. De costas para a porta.

Ela ficou observando por um tempo aquele corpo estático em seu banheiro, exatamente na mesma posição em que estava na primeira vez que ela o viu. E em todas as outras vezes. Ela pensou em bater o pé, gritar, fazer barulho para ter certeza, mas não foi necessário.

Ele virou sua cabeça lentamente, encarando Suzana. Ela sentiu vertigem, seu coração congelou: ele estava vivo! Vivo esse tempo todo! Poderia ter saído de lá se quisesse, mas preferiu ficar, brincar com o medo dela.

Ele era estranho, tinha uma feição fria, meio morta, apesar de agora ela ter certeza de que estava vivo. Tinha os olhos arregalados e a boca grande e brilhante e era impossível dizer se ele estava sorrindo ou não. Seu rosto era estranhamente conhecido, mas Suzana nunca o tinha visto antes.

Suzana não sabia o que a assustava mais: o fato dele ter escolhido ficar ali, imóvel, durante esse tempo todo ou o fato de que agora ela tinha certeza de que ele sabia como ela era.

Ela se sentia suja e inútil, sem controle sobre a própria vida. Seu corpo doía como se ela tivesse sido espancada. Ela estava exausta.

Estava decidido: era hora de ir embora.

***

Uma tormenta se avizinhava no horizonte escuro, mas nunca chegava. O vento chacoalhava as árvores, derrubava postes e arrastava latas de lixo pela rua. Os raios rasgavam a noite como se o céu fosse parir um grande monstro através daqueles cortes luminosos.

Primeiro era um avião. Ele chacoalhava numa turbulência violentíssima. Pelo rádio o comandante mandou todos se segurarem, mas só havia Suzana na aeronave. O avião despencava em queda livre. Ela se agarrou em um cano e fechou os olhos.

Quando abriu os olhos ela estava agarrada a um galho de uma árvore gigantesca, da altura de um prédio. O tronco, porém, era fino, e conforme o vento batia a árvore chacoalhava para lá e para cá, cada vez mais rápido. A sensação era de estar em uma montanha-russa sem nenhum cinto de segurança. O balanço jogava Suzana para um lado e para o outro incessantemente. Quando a situação estava quase insuportável ela percebeu que quando chacoalhava o tronco, a árvore a levava até perto das copas das árvores "normais". Ela esperou a próxima chacoalhada levá-la para baixo e se agarrou a um galho.

Agora Suzana estava no chão, no meio da mata, com outras pessoas. De repente um rugido. Todos saíram correndo e ela se viu sozinha. Surgiu então uma grande onça parda, com cerca de quatro metros de comprimento. Suzana caminhou alguns passos para o lado, para um lugar onde ela sabia — sem fazer ideia do porquê — que a onça não a atacaria. Ela não precisava se esconder, se defender, não precisava fazer nada: era só ficar ali. A onça caminhou pelo espaço sem tomar conhecimento de Suzana, que ficou lá, imóvel, de costas para a onça. Percebendo que a onça havia parado, Suzana virou o pescoço e olhou para trás, mas não havia mais onça alguma.

Suzana agora corria pela rua. Uma tormenta se avizinhava no horizonte escuro, vento chacoalhava as árvores, derrubava postes e arrastava latas de lixo. Suzana parou numa esquina e viu duas pessoas brigando. Uma delas derrubou a outra no chão e começou a espancá-la. Conforme Suzana se aproximava viu quem o espancador era... Ela própria!

A Outra Suzana chutava com violência alguém estranho. O espancado tinha olhos arregalados, a boca era grande e brilhava. Suzana percebeu do que se tratava: a Outra Suzana estava espancando seu Medo.

Apesar da violência da cena, Suzana gostava do que via. O Medo levava as mãos à cabeça e à barriga inutilmente para se proteger dos chutes da Outra Suzana, que descarregava sobre ele uma torrente de pontapés que ressoavam rua afora. O nariz do Medo sangrava. Sua feição ia aos poucos se desfazendo. Suas roupas estavam rasagdas de tanto ele se contorcer no chão.

Feliz por ver seu Medo sendo surrado, Suzana chegou ainda mais perto, pensando em apoiar a Outra Suzana ou até mesmo ajudá-la a surrá-lo. O Medo já não conseguia mais se defender. Ele estava imundo e sem controle do próprio corpo, movendo os braços inutilmente sem conseguir proteger a cabeça e o rosto dos pontapés da Outra Suzana. Ele estava exausto.

Suzana chegou bem perto, sorrindo, e a Outra Suzana se afastou para que ela pudesse ver o espancado de perto. Foi então que, horrorizada, Suzana percebeu.

Ela se levantou devagar, sentindo vertigem, e quando encarou a Outra Suzana seu coração congelou: ela tinha uma feição fria, meio morta, tinha os olhos arregalados, uma enorme boca brilhante e viscosa e era impossível dizer se ele estava sorrindo ou não. A Outra Suzana era, na verdade, seu Medo.

Trêmula e sem forças, Suzana começou a se virar novamente para o espancado, que jazia imóvel no chão, abraçado aos joelhos e coberto de sangue. Um gosto amargo subiu pela garganta de Suzana quando ela confirmou sua hipótese: o espancado era ela própria.

***

Suzana acordou dando gargalhadas, se sentou na cama e retomou a consciência aos poucos. Seu corpo não doía mais.

Ela foi até a cozinha/lavanderia, estranhamente extasiada pela endorfina matinal. Escovou os dentes e lavou o rosto no tanque, e toda a infantil simplicidade daquela situação a fez se sentir bem. Decidiu passar uma xícara do seu café chique, o gourmet, um caro que ela só tomava em dias especiais. Ela se sentou à mesa e tomou seu café sorrindo. Só não sabia o porquê: o porquê de acordar gargalhando, o porquê de se sentir tão bem, o porquê de estar sorrindo apesar de ser seu último dia no apartamento.

Seria a felicidade de ter acordado bem, depois de uma noite de sonhos tão terríveis?

Ou talvez devesse ser como aquelas pessoas sempre falaram. Quando você sabe que algo bom está para acabar, acaba aproveitando como nunca havia aproveitado antes. Deve ser algum tipo de nostalgia precoce que nos embebeda para que não desmoronemos. De qualquer forma, ela estava bem.

Por fim se trocou, arrumou a mochila e pegou seu celular. Mas antes de ir embora, decidiu se despedir do invasor. Não havia motivo para inimizade, ele vencera. Se ia ficar com o apartamento, que vivesse nele momentos tão bons quanto Suzana havia vivido.

Suzana entrou no banheiro devagar, mas ele não estava lá, de costas para a porta, como de costume. Ela olhou com cautela atrás da porta, mas não havia ninguém além dela.

Suzana tomou um longo banho quente e sorveu outra xícara do seu café gourmet. Ela se sentou no sofá e ficou meia hora sorrindo enquanto olhava seu apartamento. Decidiu então que só tomaria desse, todas as manhãs, mesmo que custasse quase o dobro do pó comum. Isso era a forma de Suzana viver cada dia em seu apartamento como se fosse o último.

Ela estava grata e satisfeita porque agora sabia. E isso fazia com que tudo fosse muito mais fácil.

Suzana

Escrever é muito, muito perigoso

Encontrei um caderno no ponto de ônibus. É um diário.

Vou pular a parte em que eu tento me convencer de que não é doentio se viciar em ler os pensamentos de um desconhecido. É doentio e qualquer pessoa faria a mesma coisa. Então, vamos seguir daqui.

Eu abri o caderno pra ver se encontrava alguma pista de quem é a pessoa: um nome, um whatsapp, um e-mail. Mas não havia nada, então li a primeira página pra ver se era de algum aluno da universidade, mas ao invés de anotações sobre alguma matéria encontrei anotações em primeira pessoa sobre a vida de alguém.

Não sei como um diário deve parecer ou se ele deve parecer alguma coisa, mas esse caderno se parece exatamente com o que eu penso que deva se parecer um diário. Os textos são inocentemente poéticos, mas não chegam a ser líricos. É uma forma sincera de falar consigo mesma.

Eu dei uma parada nas coisas do mestrado esse final de semana e ia ficar só maratonando série, mas acabei viciada em ler o caderno.

Não me sinto uma invasora. É como se essa pessoa estivesse desabafando com ninguém e agora tem alguém escutando/lendo. Na verdade eu estou ajudando, mesmo que essa pessoa não saiba. E essa pessoa, em contrapartida, sem saber também está me ajudando.

O fato é que ler os pensamentos íntimos de alguém pode te fazer se sentir um pouco menos cagada da cabeça. Que ta todo mundo mal todo mundo sabe, mas se você cavar bem fundo, acho que ta todo mundo mal igual: ninguém ta menos mal que ninguém, ninguém ta menos mal que você.

Ler o diário de alguém te faz estranhamente próxima dessa pessoa. Página a página você vai a conhecendo. É como se estivesse assistindo uma série e a cada episó0dio você vai gostando mais da personagem, mesmo que ela seja horrível. Não que esse seja o caso: o dono (ou antigo dono) desse caderno não parece ser uma pessoa ruim (não até a página 34).

Um diário é a bula da cabeça de alguém.

E conforme você lê, parece entender como esse alguém funciona.

Uma autora polonesa chamada Olga Tokarczuk escreveu um livro chamado "Escrever é muito perigoso", onde ela descreve seu processo de escrita. Ela vai dissecando a forma como escreveu os próprios livros, como pesquisou, onde se isolou e como construiu suas personagens com cacos do mundo real. Esse livro me fez pensar: será que nós também somos cacos de outras histórias?

Não que eu me importe com isso, só gostaria que minha vida tivesse uns caquinhos menos zoados. Mas pensei que talvez o dono (ou antigo dono) do diário tenha medo de que sua vida seja só um monte de pedacinhos de outras histórias, um texto no livro ou no blog de alguém.

Talvez um diário seja só uma forma de a gente tentar escrever a própria história, pelo menos a parte dela que já passou. Uma tentativa de sermos donos do nosso passado, já que não temos controle sobre nosso futuro.

No fim das contas, um caderno sem nome acabou se tornando meu psicólogo e minha mais nova crise existencial. De qualquer forma, a diferença entre o remédio e o veneno é a dose.

E eu preciso dormir: já perdi o dez pra hora semana passada, não quero perder de novo amanhã.

Verônica

Página 34

No quintal de casa tem um pé de boldo.

Toda manhã eu pego uma folha, fico amassando e sentindo o cheiro que ela deixa nas minhas mãos. Quando eu respiro fundo e sinto o cheiro do boldo, parece que o tempo para. É como se o boldo não fosse a planta, é como se ele fosse só o cheiro daquele momento.

Quando se está meditando você deve se concentrar na respiração, no ar que entra e no ar que sai. Se um pensamento vem, você deve observá-lo e deixá-lo ir embora.

Meditação se baseia em estar completamente presente, sem se preocupar com o passado ou com o futuro, separar ao menos dez minutos do seu dia e apenas se sentar de olhos fechados. "Nenhum lugar para ir, nada para fazer."

Se você se desconcentra, deve prestar atenção na respiração, nos sons ao redor ou no vento batendo no seu rosto, mas eu nunca ouvi ninguém dizer para prestar atenção nos cheiros.

Eu meditava no meu antigo apartamento. 

É estranho como eu não consigo me lembrar do cheiro do meu antigo apartamento.

Me lembro que todos os dias quando eu chegava do trabalho, fechava os olhos e inspirava profundamente. Me lembro de sentir o cheiro do meu apartamento e pensar o quanto ele era único. Me lembro que não era um cheiro ruim, muito forte ou especial, era só "o cheiro da minha casa" e esse cheiro me abraçava e me fazia sentir acolhido. Mas eu não me lembro de como era esse cheiro.

Me mudei há menos de dois meses, mas parece que isso foi num sonho distante, e eu acho que é porque eu não consigo me lembrar do cheiro do meu antigo apartamento, nem do apartamento onde eu morava antes, com minha ex-namorada, nem da quitinete onde eu morava antes disso.

No quintal de casa tem um pé de boldo.

Meu presente tem cheiro de boldo.

Quando eu me mudar daqui, mesmo que eu pense "minha antiga casa tinha cheiro de boldo", não vou conseguir me lembrar qual é o cheiro desta casa.

Acho que meditar tem mais a ver com sentir o cheiro do presente do que com prestar atenção na respiração. O ar está em todo lugar, o cheiro não.

E talvez a maior verdade que se encontre ao meditar seja o fato de que o passado não tem cheiro.

Diário encontrado em um ponto de ônibus
Pra essa memória eu dei o nome de "O cheiro do meu antigo apartamento".

Cacos do tempo

Seu quarto estava sempre bagunçado. O quadro magnético até parecia cansado de tanto carregar o peso dos post-its esquecidos, boletos bancários vencidos e recados não respondidos que se acumulavam sob os pequenos ímãs, assim como as prateleiras da estante, abarrotadas de livros que Roberta nunca leu.

Mas no meio desse mar de coisas, Roberta só conseguia olhar para o espelho.

No canto do espelho estava a foto.

Ela não posava para a foto, mas naquela minúscula fração de tempo, aquele centésimo de segundo décadas atrás em que o pequeno botão prateado fora pressionado, ela sorria descontraída. E isso a deixava ainda mais bonita.

Roberta olhava a foto com uma feição indistinta, o rosto perdido. Depois deslizou o olhar para baixo, para o espelho, para seu próprio reflexo. A comparação era inevitável. Tão parecidas, mas tão diferentes. Onde será que ela estava?

Talvez fosse algo no rosto. O sorriso, talvez. O sorriso na foto era tão bonito, tão leve, tão sincero. Sincero. Não era um "sorriso de foto", ela parecia nem estar olhando para a câmera, talvez nem soubesse que estava sendo fotografada. E era isso que tornava aquele sorriso tão bonito, o fato de ser um sorriso e não uma encenação para a foto. E Roberta nem se lembrava a última vez que havia sorrido.

Ela tinha dúvidas se alguma vez havia sorrido de verdade.

Talvez fosse isso, o sorriso. Ela tentou sorrir para o espelho, um sorriso mecânico, forçado. Tentou mover os músculos do rosto, mas eles pareciam feitos de pedra. Ficaram tanto tempo parados que solidificaram, como o magma que para de descer a montanha e se torna rocha vulcânica. Mas ela não desistiu, e fez tanta força que seu rosto doeu.

Então ela tentou de outro jeito. Pensou em sorrir de dentro pra fora ao invés de sorrir de fora pra dentro. Afinal, não é assim que os sorrisos nascem?

Só conseguiu transformar o próprio rosto em uma massa disforme, enigmática.

Enigmática. Roberta lembrou do diário.

Ele era tão enigmático quanto o motivo que a fez partir. Numa página frases tão soltas carregadas de um sentido que transcende seu significado, mas que não tinham aspas nem autoria — seriam frases dela ou citações sem atribuição? —, na outra, um comentário vago sobre o clima ou sobre o vencimento do próximo boleto.

Dois problemas se misturam: a verdade do universo e a prestação que vai vencer...

Para Roberta aquele diário era isso: um boleto vencido, como aqueles pendurados no quadro magnético. Um pedaço de papel que carrega o peso de uma dívida, mas que não serve mais para honra-la.

Roberta não podia honrar a dívida que ela havia deixado. Esse tipo de dívida não se assume nem se transfere. Não é como se ela pudesse emitir um novo boleto. Boletos como esse não se gera no site do banco nem se imprime na papelaria da esquina.

A dívida que ela deixara era bem maior do que as palavras. Era um buraco no peito que as palavras escritas naquele caderno não preenchiam.

Um diário é a bula da alma de uma pessoa.

(Onde ela tinha lido isso mesmo?)

Para Roberta não fazia sentido: leu e releu cada linha inúmeras vezes e nunca encontrou uma pista sequer. Mas se ela não queria deixar pistas, por que deixou o diário ao invés de levá-lo ou simplesmente se livrar dele. Um diário é a bula da alma de uma pessoa. Mas a bula daquela alma estava escrita numa língua que Roberta não conhecia.

Ela caminhou até a estante, onde guardava o documento, junto com todos aqueles outros livros.

Que coisa incrível é um livro... Basta olhar para ele e você está dentro da mente de outra pessoa.

Mas de que adianta estar na mente de quem se perdeu em seus próprios pensamentos?

Se um livro é um documento que alguém escreve para desembaralhar um assunto, um diário é um documento que alguém escreve para embaralhar todos os assuntos e depois tentar, desesperadamente, olhar para aquele novelo de tudo o que ela nunca entendeu e tentar, com sorte, encontrar uma ponta para puxar. Mas desenrolar o passado pra quê? O passado passou, não há nada de novo lá. Mas nós não podemos olhar para o futuro.

Passado, só olhamos para o passado.

Uma foto é um pedacinho do tempo preso em uma imagem.

Uma frase é um pedacinho de pensamento preso em algumas palavras.

Quantos pensamentos estariam esperando por Roberta naquela estante? Pensamentos que ela jamais conheceria. Por outro lado, quantas vezes Roberta lera os pensamentos no diário sem entender nada? Era um paradoxo: quanto mais você pensa nos pensamentos, menos você os entende, mas quanto menos você pensa nos pensamentos, mais você quer pensar neles para tentar entendê-los.

Será que um dia ela venceria pelo cansaço os pensamentos presos para sempre nas frases daquele diário?

Não dava mais tempo de pensar nisso. Já eram quase dez para as sete. E essa semana o motorista era o Magrelo, ele era o único motorista pontual da linha Universidade.

Os cacos do tempo na estante de Roberta teriam que esperar mais um pouco.

Roberta

Verônica

Tuc, tuc, tuc, tuc... Tuc, tuc, tuc, tuc...

Ela andava pra lá e pra cá. Uma pausa, um momento de silêncio. Devia estar parada na janela. É o que levava a crer sua movimentação. De repente, num sobressalto, de novo

Tuc, tuc, tuc, tuc... Tuc, tuc, tuc, tuc...

E parava de novo. Devia estar descalça. No apartamento ela só andava descalça, ou só de meia. Se andasse de tênis não faria barulho nenhum. Se andasse de sapato seu caminhar faria "toc, toc" e não "tuc, tuc". Mas ela não tinha jeito de quem usa sapato, não com aquela boina. Seu estilo era outro.

Dava pra ver — ou ouvir — no seu caminhar que era uma pessoa ansiosa. Eram passos curtos, rápidos, como quem quer chegar logo, mas pareciam sempre parar no meio do caminho, como se algo a fizesse mudar de ideia, algum perigo, algo que pudesse dar errado. Havia uma parada entre as caminhadas, curta, e depois de uma série de paradas curtas vinha uma parada longa, sempre perto da janela.

"Se pá, ela fuma."

Suzana tinha quase certeza de que ela fumava. Dava pra intuir pelo padrão de sua movimentação. Sua mãe também era assim quando estava ansiosa: caminhava pra lá e pra cá com passadas curtas, acendia um cigarro e dava uma parada comprida, degustando calmamente a nicotina que seu organismo absorvia. E claro: sua mãe fumava, logo era ansiosa.

Ou era ansiosa, logo fumava.

"A ordem dos tratores não altera o viaduto."

De qualquer modo dava pra saber que dentro do apartamento ela só andava descalça ou só de meia. Se andasse de sapato o som de seu caminhar seria aberto, não abafado. A não ser que seu apartamento fosse carpetado, mas não havia apartamentos carpetados no Pasárgada. E ela não tinha jeito de quem usa sapato.

"Não com aquela boina."

Seu estilo é outro, com certeza. Ela não era do tipo que usa sapato, nem vestido longo, nem blazer. Ela não fazia o tipo corporativo, era até bem jovem pra isso, mas também não era desocupada. Devia ser universitária, apesar de parecer um pouco mais velha que os estudantes que esperavam no ponto do outro lado da rua. Quer dizer, não mais velha, mais madura.

Madura. Pelo menos parecia. Talvez não tão madura, talvez fosse só impressão. Mas desocupada com certeza não era. Acordava cedo e pegava o dez pra hora todas as manhãs — pelo menos todas as manhãs de segunda a sexta. Claro! O dez pra hora, "Universidade"! Ela pegava o "Universidade", devia ser, na certa, universitária. Apesar de parecer mais madura.

Tuc, tuc, tuc, tuc... Tuc, tuc, tuc, tuc...

Os passos curtos voltaram. Pra lá e pra cá. Se fossem outros tempos Suzana ficaria puta. Outros tempos ou outra vizinha. Suzana gostava dessa, já houvera piores no quinto. Bem piores. Piores do tipo corporativo, do tipo que anda de sapato no apartamento. Pareciam sempre querer sair voando, e bem que podiam! "Toc, toc, toc,toc..." Era difícil aguentar. Mas a de agora, a moça da boina. Essa era de boa. Sem comparação. Sem sapatos, sem festinha, sem visitas.

Sem visitas.

É, ela devia ser universitária, devia ser "de fora". Sem família aqui, sem amigos. Sem ninguém. Quer dizer... teve um moço uma vez, talvez amigo, namorado, namorido. Vai saber. Suzana só o viu uma vez, mas ele tinha jeito de ser daqueles que vêm sempre. Um piá com cara de sonso. Suzana sabia que não o veria mais, não tinha como, aquela cara de pateta, com uma pessoa tão... Madura.

"Será que eu pareço madura?"

Mais alguns passinhos descalços — ou só de meia — pra lá e pra cá. Pelo padrão de sua movimentação Suzana sabia que ela estava prestes a parar de novo com aquele zigue-zague e estacionar por um tempo na janela. Suzana foi até sua própria janela, se sentisse o cheiro do cigarro teria certeza de que ela fuma (só pra ter certeza de que estava certa, de que sabia ler os sinais). Mas que burrice! "Suzana, sua burra!" O ar quente sobe. Se ela acender um cigarro não dá pra sentir o cheiro do quarto, só do sexto.

Suzana se aquieta um pouco, talvez nunca saiba se está certa. Mas em seu silêncio ela escuta algo, um som bem baixinho, um tsc. Um isqueiro! Sim, foi um isqueiro! Ou ela teria imaginado? Se ela usasse fósforos Suzana teria certeza. Mas ela não tinha jeito de quem usa fósforos.

"Verônica..."

Ela escutou algo. "Verônica"? Será que a moça do quinto estava com alguém? Não pode ser, ela não ouvira mais nada desde... Desde que começara a prestar atenção. Se bem que não dava pra ouvir muita coisa do quinto longe da janela, só os passos mesmo.

"Sua burra!"

Não. Ela não parecia estar falando com alguém. Não nesse tom, não com essa pausa entre o início e o fim da frase, como se estivesse num filme. Parecia estar só pensando alto. Se é que é possível "pensar alto", pensar fora da cabeça, como se os pensamentos pudessem ser lidos ou ouvidos por alguém. Não, o nome disso é "falar sozinha".

Falava sozinha e com certeza fumava. Do jeito que ela falou consigo mesma dava pra ter certeza: "Verônica..." longa tragada, degustando calmamente a nicotina que seu organismo absorvia, solta a fumaça, "sua burra!". Quem fala sozinho e fuma costuma conversar consigo mesma durante o rito, e muitas vezes isso inclui se repreender, se xingar.

"Meu Deus, como ela lembra minha mãe!"

Verônica. Era esse então o nome. Suzana vai até a mesa silenciosamente, como se Verônica pudesse saber que ela a estava espiando caso ouvisse seus passos (se bem que nem se pode chamar isso de espiar, ela nem tava vendo nada, só ouvindo). Suzana vai até a mesa, pega o caderno ao lado de sua máquina fotográfica semiprofissional, e anota

Verônica. Fuma. Em casa anda descalça (ou só de meias, não sei ainda). Sozinha. Usa boina. Pega o dez pra hora. Universitária?

Sozinha. Suzana estranhou não ver mais ninguém depois do piá com cara de sonso. Verônica era bonita. Quer dizer, não exatamente bonita, não um "bonita" que se enquadra em todos os padrões de beleza, mas tinha alguma coisa nela — um estilo, um jeito — que tornava ela atraente. Quer dizer, devia torná-la atraente, para os homens. Ou para as moças que gostam de moças. Vai saber.

De qualquer forma, seja lá qual fosse seu drama, Verônica devia tê-lo esquecido ou ido dormir. O "tuc tuc" parou. Talvez fosse a deixa para Suzana. Não tinha nada mais interessante pra fazer.

***

Quinze para as sete. Depois de acompanhar a rotina matinal do Senhor Chan na horta da esquina com sua máquina fotográfica semiprofissional e sua teleobjetiva 250 milímetros, Suzana pega sua bolsa e desce as escadas: o Pasárgada tem seis andares, mas nenhum elevador. Ela desce tranquila (o ponto é do outro lado da rua), mas quando chega no portão sente que tem algo estranho. Ela fuça na bolsa e não encontra o cartão do passe.

"Suzana, sua burra!"

Suzana entra no prédio correndo, agora não tem mais tempo a perder — quatro andares de subida, mais quatro andares de descida, mais o tempo de encontrar o cartão, e lá se vai o hora certa avenida acima! Ela atravessa o pequeno estacionamento o mais depressa que pode antes de empurrar a porta e esbarrar com alguém que desce, tão desesperada quanto ela. (Ela pega o dez pra hora todas as manhãs. São dez pras sete agora.) Após o choque, ambas travam por um momento. Silêncio.

"Bom dia, Verônica."

"Fala: bom dia, Verônica! Não é tão difícil." Mas tudo parece difícil segunda-feira às dez para as sete da manhã.

— Desculpa.
— Foi nada.

Foi a única interação que o horário e a situação permitiam. "Suzana, sua burra!" Suzana sai correndo para um lado. Verônica sai correndo para o lado oposto, gritando baixinho, se é que isso é possível:

"Verônica, sua burra!"

Suzana

Um conto chinês

Roberta tinha um carinho especial por aquele velho Conto Chinês. Ela o conhecia como ninguém e enxergava nele cada uma das infinitas possibilidades que se abriam diante dela quando o revisitava. Poucos entenderiam o que ela sentia quando desbravava suas páginas.

Ela conhecia cada personagem, cada enredo, cada fábula. Mais do que isso: às vezes Roberta se sentia parte do Conto Chinês, como se tivesse sido gerada num de seus parágrafos, num lampejo criativo, há muitos anos. Quando desvendava o Conto ela era uma personagem, um enredo, uma fábula impressa nas linhas do Tempo muito antes do que pudesse imaginar.

Roberta sempre desbravava as páginas do Conto Chinês como uma criança que lê pela primeira vez o que virá a ser sua história favorita. E entre as tramas já tecidas lá estava ele, seu personagem favorito, apoiado sobre o braço direito, piscando duro, com cara de poucos amigos. Sempre que Roberta entrava no mundo mágico do Conto Chinês, ele fechava ainda mais a cara, como se não quisesse compartilhar com mais ninguém aquele espaço que, paradoxalmente, ele compartilhava com inúmeras outras histórias.

Ele era uma incógnita, uma esfinge, um mistério em si próprio. Apesar de passear entre as páginas do Conto Chinês quase todos os dias, Roberta nunca o decifrara. Às vezes ele falava, sempre de cara amarrada. Às vezes só ficava lá, imóvel, sem sequer levantar o olhar. Mas a garota lia sua quietude como uma prova ímpar de sua amizade: ninguém mais a acolhia com tanta segurança no próprio silêncio – nem seu pai, nem sua avó, nem Fábio. Ninguém.

Que se lembrasse, ela jamais o vira longe daquelas páginas. Era um personagem exclusivo daquela história. Todos os seus medos, sonhos e desejos estavam impressos no Conto Chinês. Como algo tão breve, tão acanhado, fechado em si só, um conto apenas, palavras que muita gente lia ou palavras que ninguém jamais leria, podia abarcar, ao mesmo tempo, o conteúdo todo de uma existência inteira?

Era uma vida que qualquer um poderia ler, contanto que encontrasse perdido o Conto Chinês nas prateleiras da vida. Mas que seria muito difícil entender: pois são as frases simples que carregam em si os maiores mistérios.

Era engraçado. Era com quem Roberta menos trocava palavras e, ao mesmo tempo, com quem mais conversava. Seu silêncio a abrigava como o Conto Chinês o abrigava.

E era exatamente isso que a preocupava.

Roberta