Encontrei um caderno no ponto de ônibus. É um diário.
Vou pular a parte em que eu tento me convencer de que não é doentio se viciar em ler os pensamentos de um desconhecido. É doentio e qualquer pessoa faria a mesma coisa. Então, vamos seguir daqui.
Eu abri o caderno pra ver se encontrava alguma pista de quem é a pessoa: um nome, um whatsapp, um e-mail. Mas não havia nada, então li a primeira página pra ver se era de algum aluno da universidade, mas ao invés de anotações sobre alguma matéria encontrei anotações em primeira pessoa sobre a vida de alguém.
Não sei como um diário deve parecer ou se ele deve parecer alguma coisa, mas esse caderno se parece exatamente com o que eu penso que deva se parecer um diário. Os textos são inocentemente poéticos, mas não chegam a ser líricos. É uma forma sincera de falar consigo mesma.
Eu dei uma parada nas coisas do mestrado esse final de semana e ia ficar só maratonando série, mas acabei viciada em ler o caderno.
Não me sinto uma invasora. É como se essa pessoa estivesse desabafando com ninguém e agora tem alguém escutando/lendo. Na verdade eu estou ajudando, mesmo que essa pessoa não saiba. E essa pessoa, em contrapartida, sem saber também está me ajudando.
O fato é que ler os pensamentos íntimos de alguém pode te fazer se sentir um pouco menos cagada da cabeça. Que ta todo mundo mal todo mundo sabe, mas se você cavar bem fundo, acho que ta todo mundo mal igual: ninguém ta menos mal que ninguém, ninguém ta menos mal que você.
Ler o diário de alguém te faz estranhamente próxima dessa pessoa. Página a página você vai a conhecendo. É como se estivesse assistindo uma série e a cada episó0dio você vai gostando mais da personagem, mesmo que ela seja horrível. Não que esse seja o caso: o dono (ou antigo dono) desse caderno não parece ser uma pessoa ruim (não até a página 34).
Um diário é a bula da cabeça de alguém.
E conforme você lê, parece entender como esse alguém funciona.
Uma autora polonesa chamada Olga Tokarczuk escreveu um livro chamado "Escrever é muito perigoso", onde ela descreve seu processo de escrita. Ela vai dissecando a forma como escreveu os próprios livros, como pesquisou, onde se isolou e como construiu suas personagens com cacos do mundo real. Esse livro me fez pensar: será que nós também somos cacos de outras histórias?
Não que eu me importe com isso, só gostaria que minha vida tivesse uns caquinhos menos zoados. Mas pensei que talvez o dono (ou antigo dono) do diário tenha medo de que sua vida seja só um monte de pedacinhos de outras histórias, um texto no livro ou no blog de alguém.
Talvez um diário seja só uma forma de a gente tentar escrever a própria história, pelo menos a parte dela que já passou. Uma tentativa de sermos donos do nosso passado, já que não temos controle sobre nosso futuro.
No fim das contas, um caderno sem nome acabou se tornando meu psicólogo e minha mais nova crise existencial. De qualquer forma, a diferença entre o remédio e o veneno é a dose.
E eu preciso dormir: já perdi o dez pra hora semana passada, não quero perder de novo amanhã.
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