Os sonhos elétricos de Suzana

Era um início de noite quente de quarta-feira quando ela o viu pela primeira vez.

Lá estava ele, imóvel, de costas para a porta.

Ao perceber que não estava sozinha no apartamento, um calafrio desceu por todo o corpo de Suzana. Paralisada pelo medo, ela ficou olhando para ele como se isso fosse fazê-lo desaparecer num passe de mágica, mas ele continuava lá.

Ela pensou que poderia estar dormindo, tendo um pesadelo, mas infelizmente aquilo era real.

Suzana trancou por fora a porta do banheiro e o deixou lá, sozinho, enquanto pensava em como lidaria com a situação e, perdida numa tempestade de ideias inúteis, ela se fez uma pergunta: como ele havia ido parar lá? Afinal, era o quarto andar! Por fora era impossível. Pela porta da frente, talvez? Muito improvável. Ela teria que tê-la deixado aberta.

Pelo ralo? Pela privada?

A cabeça de Suzana já estava começando a formular hipóteses completamente sem sentido. Então ela decidiu deixá-lo lá e ir dormir. Uma hora ele teria que ir embora de onde veio, para sua família, seus amigos — se é que ele tinha família e amigos. De qualquer forma, Suzana foi dormir e deixou esse problema para o dia seguinte.

***

Suzana acordou cansada. Como de costume se levantou bem cedo, passou o café às cinco para as seis, pegou sua câmera para observar a rotina diária do Senhor Chan na horta da esquina e escreveu em seu caderno

Hoje o Senhor Chan cuidou das alfaces. Lembrar de qualquer dia ir comprar uma alface da horta dele.

O sol lentamente ia surgindo no horizonte, era uma quinta-feira bonita.

Suzana lavou o rosto e escovou os dentes pensando em como era estranho a porta do banheiro amanhecer trancada. Foi então que ela se lembrou, se virou lentamente e olhou para trás.

Lá estava ele, imóvel, de costas para a porta.

O sangue de Suzana congelou. Ela saiu do banheiro rezando para que ele não decidisse sair de onde estava.

Ela trancou a porta por fora e se sentou no sofá com as mãos trêmulas na cabeça. Ficou sentada ali, imóvel, por um tempo. Não sabia o que fazer. Não sabia como agir. Já eram quase quinze para as sete quando Suzana deciciu que não pensaria mais nisso, pelo menos não até voltar. O invasor de sua casa não podia ser também um invasor de sua vida.

Ela se trocou, engoliu duas bolachas cream cracker com requeijão, pegou sua bolsa e desceu correndo.

A quinta-feira passou depressa. Suzana tentou não pensar no invasor, mas acabou indo ao banheiro antes de ir embora para evitar ter que usar o banheiro de casa.

***

A sensação de acordar depois de dormir sem tomar banho era horrível. Suzana não se lembrava se já havia feito isso antes. Ela chegou a pensar em nem tocar na porta do banheiro, mas sua escova de dentes estava lá dentro.

Ela abriu a porta devagar, observando atentamente o interior do cômodo, sem saber se estava rezando para que ele não estivesse mais lá ou para que estivesse exatamente onde estava da última vez que o viu.

E lá estava ele. Imóvel, de costas para a porta.

Ela puxou rapidamente sua escova de dentes e a pasta, bateu a porta e a trancou. Depois anotou em seu caderno

Ele está lá, imóvel, de costas para a porta. E eu não sei nada sobre ele.

Após escovar os dentes no tanque, Suzana se sentou no sofá, pensativa. Sua cabeça rodava. Como aquilo era possível? Ela começou a pensar há quanto tempo o invasor poderia estar espreitando nas sombras, vendo enquanto ela fazia suas coisas, espiava os vizinhos, usava o banheiro, tomava banho... Mais uma vez um calafrio arrepiou todo o seu corpo.

Ela precisava fazer alguma coisa, mas morava sozinha. O que ela poderia fazer?

Pensou em chamar alguém para ajudá-la. Mas quem? Suzana não conhecia nenhum homem no prédio. Teria que ser um homem, claro, para lidar com aquele tipo de situação, remover o invasor. Ou talvez não. Talvez duas mulheres conseguissem. Mas ela só conhecia Verônica, do quinto, e Verônica não fazia ideia de quem era Suzana. O que você iria pensar se uma vizinha desconhecida te interfonasse te chamando pelo nome e te pedisse ajuda para expulsar um invasor que estava no apartamento dela há sabe-se lá quanto tempo?

Não. Verônica não era uma opção, e era a única opção. Então não havia quem pudesse ajudá-la.

Já eram quase quinze para as sete. Suzana lavou as lágrimas no tanque, escovou os cabelos na sala, pegou sua bolsa e saiu do apartamento.

Com medo de topar com algum vizinho no elevador e ele perceber que ela não havia tomado banho, Suzana desceu pelas escadas de emergência, mas não abriu a porta quando chegou ao térreo. Era melhor esperar e pegar o próximo ônibus. Verônica também pegava o dez para as sete.

***

Suzana chegou em casa acabada. A sexta-feira custou a terminar. Correr de tudo o que envolvia outras pessoas o dia todo foi uma tarefa muito difícil.

Ela se sentou no sofá com as mãos na barriga, sem ideia do que poderia fazer para se livrar do invasor. Só de pensar no que ele poderia fazer... Aquele corpo estranho e inerte bem ali, de costas para a porta. Como ele consguia ficar tanto tempo parado?

Como ele conseguia ficar tanto tempo parado?!

Uma fagulha riscou a escuridão dos pensamentos de Suzana.

A fagulha se tornou uma chama de esperança, o rosto de Suzana se iluminou. Isso era uma possibilidade: ele sempre estava no mesmo lugar, na mesma posição de costas para a porta, nunca emitiu um som sequer, ela jamais o vira se mexer.

Não seria o melhor dos mundos, ela ainda teria que se livrar daquilo. Mas, afinal, ela teria que lidar com isso de qualquer maneira e quanto menos difícil fosse, melhor seria.

Suzana se levantou e foi até a porta, virou a chave devagar. A luz que vinha da sala se arrastou pela fresta conforme a porta foi se abrindo, pintando o banheiro de um amarelo incandescente e ocupando geométricamente a escuridão. Ela colocou a cabeça na fresta e espiou.

Lá estava ele. Imóvel. De costas para a porta.

Ela ficou observando por um tempo aquele corpo estático em seu banheiro, exatamente na mesma posição em que estava na primeira vez que ela o viu. E em todas as outras vezes. Ela pensou em bater o pé, gritar, fazer barulho para ter certeza, mas não foi necessário.

Ele virou sua cabeça lentamente, encarando Suzana. Ela sentiu vertigem, seu coração congelou: ele estava vivo! Vivo esse tempo todo! Poderia ter saído de lá se quisesse, mas preferiu ficar, brincar com o medo dela.

Ele era estranho, tinha uma feição fria, meio morta, apesar de agora ela ter certeza de que estava vivo. Tinha os olhos arregalados e a boca grande e brilhante e era impossível dizer se ele estava sorrindo ou não. Seu rosto era estranhamente conhecido, mas Suzana nunca o tinha visto antes.

Suzana não sabia o que a assustava mais: o fato dele ter escolhido ficar ali, imóvel, durante esse tempo todo ou o fato de que agora ela tinha certeza de que ele sabia como ela era.

Ela se sentia suja e inútil, sem controle sobre a própria vida. Seu corpo doía como se ela tivesse sido espancada. Ela estava exausta.

Estava decidido: era hora de ir embora.

***

Uma tormenta se avizinhava no horizonte escuro, mas nunca chegava. O vento chacoalhava as árvores, derrubava postes e arrastava latas de lixo pela rua. Os raios rasgavam a noite como se o céu fosse parir um grande monstro através daqueles cortes luminosos.

Primeiro era um avião. Ele chacoalhava numa turbulência violentíssima. Pelo rádio o comandante mandou todos se segurarem, mas só havia Suzana na aeronave. O avião despencava em queda livre. Ela se agarrou em um cano e fechou os olhos.

Quando abriu os olhos ela estava agarrada a um galho de uma árvore gigantesca, da altura de um prédio. O tronco, porém, era fino, e conforme o vento batia a árvore chacoalhava para lá e para cá, cada vez mais rápido. A sensação era de estar em uma montanha-russa sem nenhum cinto de segurança. O balanço jogava Suzana para um lado e para o outro incessantemente. Quando a situação estava quase insuportável ela percebeu que quando chacoalhava o tronco, a árvore a levava até perto das copas das árvores "normais". Ela esperou a próxima chacoalhada levá-la para baixo e se agarrou a um galho.

Agora Suzana estava no chão, no meio da mata, com outras pessoas. De repente um rugido. Todos saíram correndo e ela se viu sozinha. Surgiu então uma grande onça parda, com cerca de quatro metros de comprimento. Suzana caminhou alguns passos para o lado, para um lugar onde ela sabia — sem fazer ideia do porquê — que a onça não a atacaria. Ela não precisava se esconder, se defender, não precisava fazer nada: era só ficar ali. A onça caminhou pelo espaço sem tomar conhecimento de Suzana, que ficou lá, imóvel, de costas para a onça. Percebendo que a onça havia parado, Suzana virou o pescoço e olhou para trás, mas não havia mais onça alguma.

Suzana agora corria pela rua. Uma tormenta se avizinhava no horizonte escuro, vento chacoalhava as árvores, derrubava postes e arrastava latas de lixo. Suzana parou numa esquina e viu duas pessoas brigando. Uma delas derrubou a outra no chão e começou a espancá-la. Conforme Suzana se aproximava viu quem o espancador era... Ela própria!

A Outra Suzana chutava com violência alguém estranho. O espancado tinha olhos arregalados, a boca era grande e brilhava. Suzana percebeu do que se tratava: a Outra Suzana estava espancando seu Medo.

Apesar da violência da cena, Suzana gostava do que via. O Medo levava as mãos à cabeça e à barriga inutilmente para se proteger dos chutes da Outra Suzana, que descarregava sobre ele uma torrente de pontapés que ressoavam rua afora. O nariz do Medo sangrava. Sua feição ia aos poucos se desfazendo. Suas roupas estavam rasagdas de tanto ele se contorcer no chão.

Feliz por ver seu Medo sendo surrado, Suzana chegou ainda mais perto, pensando em apoiar a Outra Suzana ou até mesmo ajudá-la a surrá-lo. O Medo já não conseguia mais se defender. Ele estava imundo e sem controle do próprio corpo, movendo os braços inutilmente sem conseguir proteger a cabeça e o rosto dos pontapés da Outra Suzana. Ele estava exausto.

Suzana chegou bem perto, sorrindo, e a Outra Suzana se afastou para que ela pudesse ver o espancado de perto. Foi então que, horrorizada, Suzana percebeu.

Ela se levantou devagar, sentindo vertigem, e quando encarou a Outra Suzana seu coração congelou: ela tinha uma feição fria, meio morta, tinha os olhos arregalados, uma enorme boca brilhante e viscosa e era impossível dizer se ele estava sorrindo ou não. A Outra Suzana era, na verdade, seu Medo.

Trêmula e sem forças, Suzana começou a se virar novamente para o espancado, que jazia imóvel no chão, abraçado aos joelhos e coberto de sangue. Um gosto amargo subiu pela garganta de Suzana quando ela confirmou sua hipótese: o espancado era ela própria.

***

Suzana acordou dando gargalhadas, se sentou na cama e retomou a consciência aos poucos. Seu corpo não doía mais.

Ela foi até a cozinha/lavanderia, estranhamente extasiada pela endorfina matinal. Escovou os dentes e lavou o rosto no tanque, e toda a infantil simplicidade daquela situação a fez se sentir bem. Decidiu passar uma xícara do seu café chique, o gourmet, um caro que ela só tomava em dias especiais. Ela se sentou à mesa e tomou seu café sorrindo. Só não sabia o porquê: o porquê de acordar gargalhando, o porquê de se sentir tão bem, o porquê de estar sorrindo apesar de ser seu último dia no apartamento.

Seria a felicidade de ter acordado bem, depois de uma noite de sonhos tão terríveis?

Ou talvez devesse ser como aquelas pessoas sempre falaram. Quando você sabe que algo bom está para acabar, acaba aproveitando como nunca havia aproveitado antes. Deve ser algum tipo de nostalgia precoce que nos embebeda para que não desmoronemos. De qualquer forma, ela estava bem.

Por fim se trocou, arrumou a mochila e pegou seu celular. Mas antes de ir embora, decidiu se despedir do invasor. Não havia motivo para inimizade, ele vencera. Se ia ficar com o apartamento, que vivesse nele momentos tão bons quanto Suzana havia vivido.

Suzana entrou no banheiro devagar, mas ele não estava lá, de costas para a porta, como de costume. Ela olhou com cautela atrás da porta, mas não havia ninguém além dela.

Suzana tomou um longo banho quente e sorveu outra xícara do seu café gourmet. Ela se sentou no sofá e ficou meia hora sorrindo enquanto olhava seu apartamento. Decidiu então que só tomaria desse, todas as manhãs, mesmo que custasse quase o dobro do pó comum. Isso era a forma de Suzana viver cada dia em seu apartamento como se fosse o último.

Ela estava grata e satisfeita porque agora sabia. E isso fazia com que tudo fosse muito mais fácil.

Suzana

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