Cacos do tempo

Seu quarto estava sempre bagunçado. O quadro magnético até parecia cansado de tanto carregar o peso dos post-its esquecidos, boletos bancários vencidos e recados não respondidos que se acumulavam sob os pequenos ímãs, assim como as prateleiras da estante, abarrotadas de livros que Roberta nunca leu.

Mas no meio desse mar de coisas, Roberta só conseguia olhar para o espelho.

No canto do espelho estava a foto.

Ela não posava para a foto, mas naquela minúscula fração de tempo, aquele centésimo de segundo décadas atrás em que o pequeno botão prateado fora pressionado, ela sorria descontraída. E isso a deixava ainda mais bonita.

Roberta olhava a foto com uma feição indistinta, o rosto perdido. Depois deslizou o olhar para baixo, para o espelho, para seu próprio reflexo. A comparação era inevitável. Tão parecidas, mas tão diferentes. Onde será que ela estava?

Talvez fosse algo no rosto. O sorriso, talvez. O sorriso na foto era tão bonito, tão leve, tão sincero. Sincero. Não era um "sorriso de foto", ela parecia nem estar olhando para a câmera, talvez nem soubesse que estava sendo fotografada. E era isso que tornava aquele sorriso tão bonito, o fato de ser um sorriso e não uma encenação para a foto. E Roberta nem se lembrava a última vez que havia sorrido.

Ela tinha dúvidas se alguma vez havia sorrido de verdade.

Talvez fosse isso, o sorriso. Ela tentou sorrir para o espelho, um sorriso mecânico, forçado. Tentou mover os músculos do rosto, mas eles pareciam feitos de pedra. Ficaram tanto tempo parados que solidificaram, como o magma que para de descer a montanha e se torna rocha vulcânica. Mas ela não desistiu, e fez tanta força que seu rosto doeu.

Então ela tentou de outro jeito. Pensou em sorrir de dentro pra fora ao invés de sorrir de fora pra dentro. Afinal, não é assim que os sorrisos nascem?

Só conseguiu transformar o próprio rosto em uma massa disforme, enigmática.

Enigmática. Roberta lembrou do diário.

Ele era tão enigmático quanto o motivo que a fez partir. Numa página frases tão soltas carregadas de um sentido que transcende seu significado, mas que não tinham aspas nem autoria — seriam frases dela ou citações sem atribuição? —, na outra, um comentário vago sobre o clima ou sobre o vencimento do próximo boleto.

Dois problemas se misturam: a verdade do universo e a prestação que vai vencer...

Para Roberta aquele diário era isso: um boleto vencido, como aqueles pendurados no quadro magnético. Um pedaço de papel que carrega o peso de uma dívida, mas que não serve mais para honra-la.

Roberta não podia honrar a dívida que ela havia deixado. Esse tipo de dívida não se assume nem se transfere. Não é como se ela pudesse emitir um novo boleto. Boletos como esse não se gera no site do banco nem se imprime na papelaria da esquina.

A dívida que ela deixara era bem maior do que as palavras. Era um buraco no peito que as palavras escritas naquele caderno não preenchiam.

Um diário é a bula da alma de uma pessoa.

(Onde ela tinha lido isso mesmo?)

Para Roberta não fazia sentido: leu e releu cada linha inúmeras vezes e nunca encontrou uma pista sequer. Mas se ela não queria deixar pistas, por que deixou o diário ao invés de levá-lo ou simplesmente se livrar dele. Um diário é a bula da alma de uma pessoa. Mas a bula daquela alma estava escrita numa língua que Roberta não conhecia.

Ela caminhou até a estante, onde guardava o documento, junto com todos aqueles outros livros.

Que coisa incrível é um livro... Basta olhar para ele e você está dentro da mente de outra pessoa.

Mas de que adianta estar na mente de quem se perdeu em seus próprios pensamentos?

Se um livro é um documento que alguém escreve para desembaralhar um assunto, um diário é um documento que alguém escreve para embaralhar todos os assuntos e depois tentar, desesperadamente, olhar para aquele novelo de tudo o que ela nunca entendeu e tentar, com sorte, encontrar uma ponta para puxar. Mas desenrolar o passado pra quê? O passado passou, não há nada de novo lá. Mas nós não podemos olhar para o futuro.

Passado, só olhamos para o passado.

Uma foto é um pedacinho do tempo preso em uma imagem.

Uma frase é um pedacinho de pensamento preso em algumas palavras.

Quantos pensamentos estariam esperando por Roberta naquela estante? Pensamentos que ela jamais conheceria. Por outro lado, quantas vezes Roberta lera os pensamentos no diário sem entender nada? Era um paradoxo: quanto mais você pensa nos pensamentos, menos você os entende, mas quanto menos você pensa nos pensamentos, mais você quer pensar neles para tentar entendê-los.

Será que um dia ela venceria pelo cansaço os pensamentos presos para sempre nas frases daquele diário?

Não dava mais tempo de pensar nisso. Já eram quase dez para as sete. E essa semana o motorista era o Magrelo, ele era o único motorista pontual da linha Universidade.

Os cacos do tempo na estante de Roberta teriam que esperar mais um pouco.

Roberta

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